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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

 Tem um arranhão enorme e ardido no lado esquerdo do meu peito.  
E eu sei quem fez.
Meus olhos escureceram como se não tivessem fundo.
Meu coração se estilhaçou como rachadura de gelo.
Só agora fui capaz de dizer adeus ao que eu havia carregado até ali.

sábado, 11 de dezembro de 2010


Vim juntando os seus pedaços pelo caminho.

Tinha certeza que dava para consertar.

E a menos que tenha desistido,

lhe trago este papel em branco

e esta caneta para você

se reiventar.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Temo os caminhos

 
Há quem prefira acreditar que é o caminho que escolhe a pessoa. Obriguei-me a sair às ruas e me afastar dessa escrivaninha, de modo que pudesse dar oportunidade para que o meu me encontrasse. Se alguém pretende ser descoberto, ao menos tem que andar na trilha das opções, ou limitaria as possibilidades de acordo com as expectativas. À medida que eu caminhava, sentia que a coragem me abandonava e o medo me invadia. E à semelhança de meus passos, o pensamento recuava, deixando para trás um rastro glacial de covardia.  O difícil não era admitir que havia perdido, mas sobretudo, que havia desistido.  Senti o vento acariciar minhas feridas, enquanto o véu da consciência se abria para enfrentar o desconhecido. Caminhei como uma dama enlutada até me confundir com uma sombra a mais na neblina. À certa altura, lembro-me de ter fechado os olhos e não os abri até ter certeza de que estava sozinha. Pensei no destino e sorri. Quis acreditar que aquilo era uma questão de tempo, e que se eu não apertasse tanto o passo, possivelmente ele me alcançaria. Tenho me arriscado cada vez menos, com o receio científico de quem espera do outro, não mais que a ironia ou a agressão escondida. Temo os caminhos. Mas não é fugindo que vou passar minha vida.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


Ela tem semblante bíblico, mas, para santa, confesso que faltou a vocação. Chega de bancar a virgem  terminal, pedindo a benção para o padre, quando o que ela quer é devorá-lo com luxúria e paixão. Agora queimem a herege. Chamam-na de Maria das Virtudes. Mas no fundo, é uma camélia devassa  a mercê de um mundo de orgias e pecados sem perdão.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010



Parece que o dia de hoje começou há dez anos. Medo de acordar e terem ressuscitado aqueles fantasmas que enterrei com gosto. Centenas de milhares de pessoas sem cor e nem rosto interceptam minha trajetória. Mas nenhum que correspondesse à descrição de “prato branco e raso” do que tem fome de olhar. Este amor tem duzentos anos. Ele tem olhos vermelhos e barba crescida. Às vezes tenho vontade de sair correndo, mas a consciência logo me encontraria e abaixaria as grades, obrigando-me a refazer o caminho de volta. Cada dia que passa, meus olhos estão mais feridos com essa distância. E só prestam atenção no jeito de se desviarem de alguma foice que os rasguem por inteiro. Será que ele foge porque tem medo de não saber o que fazer comigo? Ou tem medo de não saber o que fazer com ele? Eu vou inventar uma agulha de luz para espetar a escuridão. Embora ela torne mais difícil caminhar, eu já atingi o limite das trevas. Suponho, por extrapolação, que eu seja louca. Tenho medo que o anjo da guarda não desça do céu a tempo, e me coloquem numa camisa de força sob os auspícios de um extravagante sanatório, e eu me torne o escândalo predileto dos dissabores da vida. Mas eu vou acordar amanhã, abrir a janela e sol me iluminará me provando o contrário. E vou me acabar de tanto rir. Provavelmente de mim mesma. Não vou mais esvaziar minha alma para alguém que me trata como uma estranha. Como é mesmo que ele era? Estou começando a esquecer?  Como demora morrer os amores em nossos corações. Eu tento. Mas o corpo não aceita mais nada. Embora, aparentemente esteja faminto, não vou estendê-lo sobre a calçada para servir de aperitivo aos vira-latas. Não quero me transformar em miniaturas de palitos ossuários na boca de cães lambancentos. Vou deixar que a chuva caia. E, com o tempo, as águas lavem o sangue. Minha vida é um espetáculo babilônico. É como se tudo o que eu tocasse virasse pedra. Aprecio os abismos emocionais. Quase ninguém chega perto. E minha grande ambição, é soltar as correntes da razão e expiar o que há dentro, ainda que ao final me reste apenas a vertigem da queda. Não me contento com formas. Ou toco no fundo. Ou não toco em nada. 

 


quarta-feira, 23 de junho de 2010

E continuou a nevar todos os dias daquela semana, até que uma tarde a chuva se recolheu e o sol se abriu. Uma silhueta de luz perfilava as colinas, cobrindo as sombras com uma muralha invisível. Despalpebrava o crepúsculo. E o calor derreteu a tempestade em pó, ressuscitando minhas asas de gelatina. Minhas asas não haviam secado, embora estivessem sepultadas a um palmo de neve. Me descongelo então. E me deixo voar, sem medo de me estilhaçar do infinito outra vez. É bonito sentir as coisas. Especialmente as que você não pode mais tocar. Tem noites, em que meu coração fala dormindo, em sonhos. Mas ninguém o escuta. Minha janela ainda está batendo os dentes, à espera de não sei mais que. Sobre ela, um passarinho que quase não canta, tapa seus olhos com as mãos, como se minha solidão o ferisse. Mas é assim quando se perde um amor. A gente perde também o poder de ave. Todavia, ninguém pássaro tem culpa de cair das alturas, quando é guilhotinado pelo vento. É preciso emplumar as asas, arfando os vazios. Quando menos se espera, bem de mansinho, lá longe, do alto onde os pássaros se encontram. A tristeza bate as asas, e se perde aos olhos da gente.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Aos que perdem por orgulho...


Corre o tempo. Perguntei-me se eu ia terminar os meus dias assim: como um destes personagens de Jane Austen, escapulidos das páginas de um livro à procura de uma possibilidade de amor. Desde que ele se foi, passaram-se vários dias sem que eu tivesse notícias dele. Encantoei os olhos na ponta da escrivaninha e avistei um aparelho telefônico que me reparava de esguelha, com a testa franzida, como se quisesse me mostrar algo inovador que ainda não fiz: "telefonar". Imediatamente, recobrei o juízo: "como uma coisa tão simples pode se tornar tão difícil" ? Derramei na alma uma coragem, que no fundo não tinha. Peguei o telefone e respirei fundo. Foi quando a própria respiração tentou me sufocar. Hesitei, e por um instante não consegui engolir nem a própria saliva, tinha a consistência de aço inoxidável ferrítico ACE -P4 39A. Suspirei perdida, formulando minhas dúvidas em voz baixa: "este telefone não existe, é só uma miragem que insisto em teclar". Mas tratava-se de uma emergência. Eu não podia partir sem deixar ao menos um coração a inventariar. Antes de falar, parei um instante para recuperar o fôlego e conjugar os verbos que se revoltaram e fizeram uma rebelião no céu da boca, fazendo de refém a minha língua que ficou presa entre os dentes. Não penso, logo, eu ligo. E abençoados sejam meus ouvidos! Finalmente consegui discar o seu número. Tive a impressão de que meus dedos se afundavam entre as teclas enquanto as garras do fio se embaraçavam em meu pescoço, apertando minha garganta como um cipó espinhento. Eu o levei com pouca ou nenhuma coragem até o ouvido, e por sorte, tinha um sinal anêmico de: "fora de área". A secretária eletrônica atendeu. Minha voz ficou dependurada de cabeça para baixo na caixa postal, matando enforcado o seguinte recado: "me deixaria voltar a vê-lo, se eu pedisse"?


P.S.: Vocês estão de prova. Eu tentei.

quarta-feira, 16 de junho de 2010


 
Escorados apenas na ponta das pálpebras, que vergam como folhas de junquilho. Meus olhos estão se pondo. Apoiei-me  nas costas do tempo, como se pudesse aparar a neve que me cobre as feições. Não sinto mais frio. Afrouxo os nós, desamarro os cadarços, fico descalça.  Preciso serenar, assoprando ao vento os meus porquês. Por que não ouve o meu silêncio, se dentro de você ele faz um escândalo em voz alta? E você continua andando pelos campos de concentração emocional, como se não estivesse me escutando. Heróis de verdade, não deixam feridos para trás. Eu não pretendo ficar muda, mas essa distância faz de nós, estátuas de cinza. Nossos pés carregam passos de despedida, mas deixam um rastro rubro na memória, arrastando todas as lembranças que encontra pelo caminho. Superioridade. Separação. Segredo.  Somos assim. Corações anoitecidos só com o gosto de sonho na boca.  Sustentados apenas por vasos rijos serrilhados em forquilhas. Eu não vou passar, mas você vai. E vou acompanhá-lo até que eu não encontre em você nenhuma magia. Me entrego aos caminhos e me confundo com o vento. Deixo voar os pontos finais, cedendo lugar às reticências. Nunca me dei bem com definitividades. A maneira como suportamos o vazio é o que determina se merecemos que ele se encha.

terça-feira, 8 de junho de 2010

 
Estou aprendendo com os ventos. A mudar o rumo, sem qualquer explicação. 
Estou aprendendo com as estradas. A seguir em frente, e deixar que os caminhos me escolham.

domingo, 2 de maio de 2010


"Não fazia nenhum caso das minhas ternurinhas"

aquele, o Manuel Bandeira.

Vontade de passar o tempo jogando sal neste sapo que vive entrando no meu quintal. Mas não consigo. Queria transformar ele em príncipe. Vai ver o amor é isso mesmo. Um sapo verde, enrugado, cheio de sarda e que talvez nem exista. Acho que meu coração está ficando inquieto, mudando de jeito, aprendendo a amar. Que burreza essa coisa de esperar. A Pipa ta aqui, sobrando no céu. Nessa tapera de estrelas. Não sei onde arranjo tanta esperança. Deve de ser pra repartir com vocês.

E amanhã tem sonho.

Um beijo.

quarta-feira, 31 de março de 2010


Tem nevado todos dias. Calcei meus sapatos de chuva e saí para caminhar, embora não soubesse para onde. Meu sol foi sepultado há algum tempo. Foi enterrado junto com os corpos de mendigos e indigentes que morreram de frio nas escadas da solidão. Queria saber a forma que tinha meu rosto quando eu era criança. Mas não tenho nenhum retrato. Algum dia, alguém quis me convencer que não dava para ver o mar da minha janela. Que os pássaros não cantam nem são multicoloridos como antes. Quando o outono chegou trocaram o mar atrás da minha janela por uma lagoa de patos esparramados pelas cortinas de mato. Meu coração neste fim de março parece uma balsa fria e hostil excursando pelo infinito. Eu só queria abrir os olhos e ver teu sorriso antes de perder os sentidos. Hoje, só o brilho deles me libertaria.